Doutor Google: como agir quando o paciente leva informações da internet para a consulta?

Quem não é médico e nunca fez uma busca na internet para identificar possíveis sintomas de uma doença que atire a primeira pedra. O “doutor Google” virou fonte de consulta de muita gente para se informar sobre saúde, mais ainda tem tempos de pandemia. Isso, é claro, acaba interferindo na relação entre médicos e pacientes.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), Carlos Isaia Filho, médico ginecologista há 40 anos, hoje a internet mais ajuda que atrapalha, de forma geral. Em um primeiro momento, no entanto, segundo ele, os pacientes chegavam às consultas com diagnósticos já pré-definidos, com base em buscas na Internet. 

“Isso trazia um certo desconforto para o médico, porque além de ele ter que fazer o diagnóstico dele, tinha que explicar porque os outros diagnósticos, levados pelo paciente, não se encaixavam”. A mesma coisa ocorria com tratamentos recomendados pelos profissionais de saúde.

Mais recentemente, viu-se que isso passou a caminhar a favor da relação médico-paciente. “Hoje, o paciente tem mais conhecimento para conversar e discutir com o médico e para escolher a melhor forma de tratar uma patologia, em uma decisão conjunta

Conforme um artigo científico publicado por Ana Thereza Meirelles, Pós-Doutoranda em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, e Ionadja Silva, graduanda em Direito pela Universidade Católica do Salvador, as “informações disponíveis na internet possuem potencial para alterar a relação médico-paciente, ainda fundamentado em um expressivo desequilíbrio de poder”. Segundo o texto, esse conteúdo tende “a elevar o poder decisório do paciente, pondo em questão o conhecimento técnico e científico do profissional médico”. 

Em 2010, um estudo da Health On the Net Foundation (HON) mostrou que, tanto o público em geral quanto os profissionais de saúde que discutem com seus pacientes as buscas por eles feitas na internet relatam que o efeito é positivo: há melhorias na comunicação e encoraja o paciente a lutar contra a sua doença. O estudo foi feito com mais de 500 pessoas de 60 países, 36% delas de profissionais da saúde. Contudo, os médicos acreditam que isso também possa aumentar o risco de automedicação.

Como os médicos devem agir?

Para o presidente do Cremers, diante de informações trazidas de pesquisas na internet pelo paciente, só há uma opção: “A única e melhor conduta é conversar com o paciente e colocar para cada tratamento quais são as vantagens, desvantagens, qual é o embasamento que existe”, afirma. 

A boa comunicação com o paciente é fundamental, inclusive, para a eficácia do tratamento. “A gente observa que o paciente bem instruído aceita muito bem o tratamento”, diz o médico. “Se você receitou um remédio que o paciente acha que vai não vai fazer bem, pode ter certeza de que não vai mesmo”.

Para Meirelles e Silva, autoras do artigo sobre o tema, o médico deve ter uma postura ponderada, permitindo ao paciente colocar as dúvidas encontradas em sua pesquisa e, assim, possibilitar uma conscientização sobre os achados não serem confiáveis.

“Torna-se imprescindível que os profissionais da área médica saibam lidar com essa realidade com a sensatez de quem deve ter o reconhecimento que a educação permanente passa pelo fato da inserção tecnológica, uso de evidências adequadas para tomada de decisão e ainda a utilização de informação com qualidade para orientação dos pacientes. 

Elas ainda acrescentam que deveriam haver políticas públicas ou projetos de inclusão digital e social, mediados por ferramentas inclusivas a orientação assistencial da população sobre os sérios riscos da informação desassistida. 

Fake news preocupam

Mesmo diante dos pontos positivos que a internet pode trazer para a relação com pacientes, há preocupação, especialmente diante das fake news. “A pandemia trouxe muita insegurança de informação, porque foi muito politizada, então o número de fake news passou a ser muito grande”, diz Isaia. 

Não é novidade que, desde o começo da pandemia de Covid-19, uma enxurrada de fake news invadiu a rede com promessas enganosas de tratamento e informações que descredibilizam as vacinas, por exemplo. 

Segundo a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), o desdobramento da pandemia demonstrou como a disseminação da desinformação, amplificada nas redes sociais e outras plataformas, está se revelando uma ameaça à saúde pública global tanto quanto o próprio vírus. 

“Os avanços tecnológicos e as mídias sociais criam oportunidades para manter as pessoas seguras, informadas e conectadas. No entanto, as mesmas ferramentas possibilitam e amplificam a ‘infodemia’ atual que continua a minar a resposta global e comprometer as medidas de controle da pandemia”, diz a OMS em artigo

Nesse contexto, um dos problemas, por exemplo, é elevar o risco de automedicação. O uso indiscriminado do kit Covid, por exemplo, com medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, levou pelo menos cinco pacientes à fila dos transplantes em São Paulo. 

Para auxiliar no combate às fake news, o Cremers  criou um canal exclusivo, tanto para profissionais de saúde, quanto para a população em geral. A partir de um formulário online, todos podem encaminhar informações para que sejam verificadas quanto à sua veracidade.  Na página do órgão também é possível acessar informações já verificadas por veículos de checagem reconhecidos e o posicionamento técnico do Cremers.

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